Presente inusitado

Hoje sábado dia de fazer mercado. Fui numa loja diferente, rodei um bocado e não comprei nada porque não gostei dos preços. Na saída resolvi fazer um lanchinho rápido e quando estava me servindo aconteceu o fato inusitado que estava faltando para completar a semana.

Um senhor se aproximou de mim falando em inglês, depois emendou uma frase em francês e por fim disse, mas também falo português. Eu perguntei-lhe: está falando comigo?

Ele não me respondeu e continuou falando, disse que era professor e estava esperando uma turma de alunos, que estavam devendo-lhe R$2.500,00, que ele não tinha dinheiro para almoçar e se eu podia pagar-lhe o almoço.

Respondi que almoço não, mas se ele quisesse um café poderia pedir, e fiquei pensando, a quantas andam os pedintes hoje em dia, a abordagem já vem em várias línguas, mas fui interrompida pelo diálogo dele com a atendente da lanchonete.

Ele pediu café com leite, mas que ela prestasse atenção porque queria leite frio e pouco café, bem quente, e para acompanhar pão com queijo quente. Só queijo porque ele nunca comia presunto ou qualquer tipo de carne. A menina olhou para mim como se fosse perguntar, não falta mais nada não?

Dai ele começou a falar que havia trabalhado na Petrobrás, que tinha sido adepto da macrobiótica  a muitos anos atrás e que agora só comia folhas e verduras, e eu perguntei: e as proteínas? Somente do queijo! AH!……………..

Comi meu lanche enquanto ele continuava a falar, coisas que eu entendi pela metade, para falar a verdade, até que ele me disse que ia me dar um presente e começou a mexer na mochila.

Tirou duas folhas de papel com poemas de Vinicius de Moraes. Cópias xerografadas com uma letra muito bonita, parecendo de professor mesmo.

Despediu-se, apertou minha mão, me desejou “Feliz 2011” e foi embora.

Eu terminei meu lanche, levantei, paguei a conta e fui embora pensando: um poema por um café com pão; boa troca!

Abaixo os dois poemas que ganhei,

Beijos a todos.

O HAVER

Vinicius de Moraes

O Haver Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
essa intimidade perfeita com o silêncio.
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo.
Perdoai: eles não têm culpa de ter nascido.
Resta esse antigo respeito pela noite
esse falar baixo
essa mão que tateia antes de ter
esse medo de ferir tocando
essa forte mão de homem
cheia de mansidão para com tudo que existe.
Resta essa imobilidade
essa economia de gestos
essa inércia cada vez maior diante do infinito
essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons
esse sentimento da matéria em repouso
essa angústia da simultaneidade do tempo
essa lenta decomposição poética
em busca de uma só vida
de uma só morte
um só Vinícius.
Resta esse coração queimando
como um círio numa catedral em ruínas
essa tristeza diante do cotidiano
ou essa súbita alegria ao ouvir na madrugada
passos que se perdem sem memória.
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
essa imensa piedade de si mesmo
essa imensa piedade de sua inútil poesia
de sua força inútil.
Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
de pequenos absurdos
essa tola capacidade de rir à toa
esse ridículo desejo de ser útil
e essa coragem de comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade,
essa vagueza de quem sabe que tudo já foi,
como será e virá a ser.
E ao mesmo tempo esse desejo de servir
essa contemporaneidade com o amanhã
dos que não tem ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar,
de transfigurar a realidade
dentro dessa incapacidade de aceitá-la tal como é
e essa visão ampla dos acontecimentos
e essa impressionante e desnecessária presciência
e essa memória anterior de mundos inexistentes
e esse heroísmo estático
e essa pequenina luz indecifrável
a que às vezes os poetas tomam por esperança.
Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
na busca desesperada de alguma porta
quem sabe inexistente
e essa coragem indizível diante do grande medo
e ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer
dentro da treva.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
de refletir-se em olhares sem curiosidade, sem história.
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho,
essa vaidade de não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável.
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
e esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte
esse fascínio pelo momento a vir, quando, emocionada,
ela virá me abrir a porta como uma velha amante
sem saber que é a minha mais nova namorada.

Extraída do livro “Jardim Noturno – Poemas Inéditos”, Companhia das Letras – São Paulo, 1993, pág. 17.

Poema de Natal

Vinicius de Moraes

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Extraído do livro “Antologia Poética”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1960, pág. 147.

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