Somos todos aprendizes

Quando estamos com o coraçao aberto e nos colocamos à disposiçao, coisas boas acontecem!

Ontem me aconteceu uma coisa interessante, que já me aconteceu outras duas vezes, mas ontem foi diferente.

Eu estava no mercado com meu filho e fui abordada pelo segurança. Ele me cumprimentou perguntou a queima roupa se eu não era a Dona Marta. Estranhei porque eu não o conhecia, mas confirmei quem era então ele abriu um sorriso e disse que foi meu estagiário.

Começamos a conversar e perguntei sobre como ele ia indo, se já havia se casado, se tinha filhos e ele me contou um pouco de sua vida, mas o mais importante é que senti em seus olhos a emoção por estar conversando comigo, e eu me emocionei por perceber que fiz parte da vida daquele rapaz e que o ajudei de algum modo.

A primeira vez foi no estacionamento de um shopping perto de casa. De repente vi um rapaz se aproximando de mim para me ajudar a estacionar. Como ele estava com um uniforme de segurança não me assustei, mas quando ele abriu a porta e me estendeu a mão eu achei muito estranho.

Ele me chamou pelo nome e eu perguntei de onde me conhecia. Disse que já havia me visto outras vezes no shopping, mas teve receio de se aproximar e que agora tinha tido certeza em me reconhecer e por isso se aproximou, disse que havia sido meu estagiário e que na época gostava muito de mim porque eu os chamava para conversar e não acreditava no que as pessoas diziam antes de ouvir o que eles tinham a dizer.

Levei um choque, primeiro por que na minha cabeça aqueles estagiários ainda eram adolescentes e ver um deles com quase 2 metros de altura, homem feito, se lembrando de mim com detalhes de algumas conversas me deixou sem ação.

Da segunda vez foi num dia em que eu estava meio invocada e fui almoçar sozinha. Escolhi um restaurante em que já havia ido outras vezes e estava disposta a ficar lá enquanto minha rabugice não passasse. Entrei, sentei e fui atendida por um garçom, fiz meu pedido e fiquei esperando, não demorou muito o Maitre veio à minha mesa e perguntou se eu não queria mais nada, se estava sozinha e por fim perguntou se eu era a Dona Marta, se não me lembrava dele? E eu me vi naquela situação de: ai meu Deus quem será esse homem?

Eu sou péssima para guardar nomes, nunca esqueço um rosto, mas juntar o nome ao rosto é um desastre!

Como eu fiquei olhando para ele com aquela cara de “ai meu Deus” ele acabou falando – Sou Fulano, fui seu estagiário! Como vai a senhora? Trabalha lá ainda? E pronto, meu almoço solitário já tinha virado um encontro social.

Quando pedi a conta ele veio a minha mesa acompanhado pelo gerente do restaurante e me apresentou quase como se eu fosse sua parente, me mostrou a foto de sua esposa com a filha e eu sai emocionada, muito diferente de como entrei uma hora antes.

Todos os três foram meus estagiários há mais de 15 anos! Eu era assessora da diretoria, mas por falta de funcionários acabei assumindo também a coordenação de  um programa que recebia adolescentes encaminhados pela Fundac,  uma fundação estadual que cadastrava e trabalhava com famílias carentes com o foco de cuidar das crianças e adolescentes em situação de risco, desde a pobreza até as questões de cuidados e segurança; hoje nem sei se essa fundação existe ainda.

Esses meninos e meninas entravam com 14 anos e se desligavam aos 18 anos e durante esses 4 anos ficavam sob a responsabilidade de uma coordenação em cada secretaria de Estado. Nós  os distribuíamos pelas unidades internas e acompanhava seu desenvolvimento no estágio, as notas da escola e quando era necessário entravamos em contato com os pais,  através da Fundac e seus coordenadores.

Nesse programa tínhamos 110 vagas para estagiários em SSA, Feira de Santana e Vitória da Conquista. A maioria eu não cheguei a conhecer pessoalmente, apenas recebia relatórios de freqüência e desempenho através dos coordenadores regionais, mas os aprendizes de SSA passavam por uma entrevista comigo antes de serem encaminhados para algum setor e sempre que possível eu procurava um motivo para chamá-los para poder conversar.

Fui coordenadora desse programa de 95 a 97, façam as contas, quantos meninos e meninas eu conheci, entrando e saindo do programa. Lembro-me fisicamente de alguns por causa de poucos  acontecimentos ou fatos marcantes, mas a grande maioria faz parte da lembrança geral do trabalho que realizávamos.

Ser reconhecida tanto tempo depois, por homens formados, com famílias e histórias de vida reais e perceber em seus olhares que eu fiz parte da mudança que aconteceu em suas famílias de origem ou que aquele estágio foi a primeira oportunidade de se prepararem para o trabalho, onde aprenderam sobre relações de trabalho, respeito e confiança é muito gratificante.

Ouvir daquele primeiro rapaz  que na época gostava de mim porque eu lhes dava a chance de se explicarem e que eu procurava entender porque haviam feito isso ou aquilo, e que eles sabiam que podiam contar comigo se algo acontecesse no trabalho, é uma sensação maravilhosa que não tem preço!

Me lembro que quando acontecia algum problema, após ouvir a reclamação do chefe da sessão eu queria ouvir o que o menino tinha a dizer. Muitas vezes conseguia resolver a situação apenas retornando a conversar com o chefe para explicar-lhe o ponto de vista do garoto.

O maior problema era conseguir explicar aos colegas de trabalho a dificuldade que esses meninos tinham para se livrarem do estigma de “menor” aprendiz e mudar para o que eu gostava de chamar de “adolescente aprendiz”, sempre pedia que lhes dessem mais uma chance, mas com outro olhar e outra perspectiva.

Isso deu certo na maioria das vezes, em algumas outras o problema estava realmente no adolescente e era preciso após várias tentativas,  que ele retornasse à Fundação para outro tipo de intervenção. Mas no geral era um trabalho gratificante porque atrás de cada dossiê havia um nome, uma pessoa, uma família com uma história difícil para ser trabalhada pela assistência social.

Quem sabe não tenha sido esse o motivo por eu ter escolhido essa profissão em 98?

Enfim, existe um ditado que diz que só podemos colher o que plantamos, então quando muitos anos depois esses encontros acontecem, eu fico com a sensação de que fiz um bom plantio no coração e na mente daqueles jovens.

Desejo ter conseguido o mesmo com meus filhos!

Nesses momentos e em outros semelhantes em outras histórias, percebo que  é hora de colher e receber um pouco de energia boa de volta.

Marta

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s