Flores de Marluce

Quase toda semana tem comemoração de aniversário de alguém lá no trabalho, hoje teve mais uma, mas dessa vez foi diferente porque para mim teve gosto de infância.

Trouxeram um bolo com uma decoração delicada, simples. Apenas duas rosas de glacê sobre a cobertura de chocolate. Quando vi o bolo voltei aos meus 5 anos de idade, pois aquelas flores me trouxeram lembranças que guardo com muito carinho, não sei bem porque.

Nós morávamos numa casa de fundos, isto é, havia uma casa grande com um quintal enorme e algumas casas menores nos fundos, umas três eu acho. A dona da casa era uma portuguesa “boleira” e suas duas filhas eram as confeiteiras e ornamentavam bolos maravilhosos de aniversário e casamento. Eu devia ter uns 5 anos e minha irmã uns 3, haviam outras crianças no quintal, mas eu não me lembro direito, apenas os bolos ficaram em minha memória.

Dona Maria fazia os bolos em formas “gigantes” (para mim na época), depois ela cortava as laterais para ficar do tamanho do tabuleiro e guardava as tiras  para nivelar o bolo, o que sobrava ela dava para as crianças comerem. Cortava, colocava o recheio e passava para uma de suas filhas fazer o acabamento.

ERA UMA FESTA! Todo dia tinha bolo…Um mais gostoso que o outro…

Mas o melhor era raspar a tijela do recheio: doce de leite com ameixa… hum… com pêssego… com abacaxi… goiabada… creme de leite com chocolate… aí que saudade!!!!

Depois do bolo arrumado a filha mais velha, de quem eu não me lembro o nome, cobria-o com uma cobertura de glace de manteiga ou de limão, o meu favorito até hoje. Fazia trançados, cestas, bordados azuis, rosas, amarelos e verdes. Quando era para casamento ou 15 anos Marluce, a filha mais nova, fazia flores de glacê e decorava as cestas ou as bordas dos bolos, que para mim pareceiam jardins deliciosos.

Marluce era uma artísta. Ela fazia as flores no cabo de um garfo, moldava as pétalas com maestria e me encantava, colocava com cuidado sobre o bolo e eu ficava na beirada da mesa observando e desejando que ela me desse uma. Acho que trocaria todos os pedaços de bolo e as raspas do recheio só para ter o prazer de comer uma flor de glacê. Mas ela nunca me deu nenhuma, não sei porquê, talvez ela nunca tenha percebido o meu desejo, na verdade acho que nunca pedi que ela me desse uma flor.

Em meu casamento, 20 anos depois, procurei por ela mas Marluce não fazia mais bolos. Encomendei meu bolo de casamento à sua cunhada, que também se tornou boleira. Pedi que fosse um bolo grande, retangular e que colocasse flores de glacê. Não foi possível, ela conhecia as flores mas não sabia fazer, o segredo e a arte se perderam com Marluce e meu bolo teve um buque artificial bonitinho, sobre uma cobertura bordada de glacê branco, também muito bonitinho.

Eu queria flores. Uma só que fosse, mas que fosse uma rosa de Marluce.

Hoje, quando vi aquele bolo com duas rosas de glacê me emocionei e voltei a minha infância doce. Ninguém entendeu nada, pensaram que era brincadeira minha, mas comi aquela flor com tanto gosto que valeu a pena esperar 45 anos para saboreá-la!

Vejam que lindas!

Flores de glacê

Flores de glacê

Flores de Marluce

Flores de Marluce

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