Escutatória

De vez em quando chega alguma coisa boa pelo email.

Recebi essa mensagem de uma colega e fiquei a pensar (claro!) sobre como a nossa disposição em ouvir e entender o outro afeta e muda nosso comportamento e nossas relações.

Sou uma pessoa agitada, elétrica, impaciente, mas desde que me lembro, sempre me coloquei como ouvinte, acho que por causa de minha curiosidade e desejo por aprender coisas novas. Penso que foi esse sentimento e necessidade de absorção de conhecimento que me levou para escola de serviço social, para a música, para a poesia, depois para a área de RH de onde eu busquei a integração e a complementação com processos, gestão e projetos.

Na minha cabeça as coisas tem de estar completas para fazerem algum sentido, tenho de ter várias informações ao mesmo tempo para montar um cenário em que eu compreenda os acontecimentos e as ligações entre tudo que está em movimento. Quando aparece alguma fresta nova, lá vou eu em busca de compreender o que falta e continuar a montar e remontar possibilidades, num moto continuo que me leva sempre uma volta acima de onde estou.

Em meu histórico, com o passar do tempo, instalou-se a deficiência auditiva que me impele a observar os lábios de quem está falando. Por causa dessa atenção redobrada passo a acompanhar os olhos, as mãos e o modo como as pessoas se posicionam quando estão falando. Esse simples ato de observar cria uma empatia com quem fala de modo que esse sujeito sente que estou de fato prestando atenção ao que ele diz. Porém, em contrapartida, nada me irrita mais do que quando sou interrompida em minha fala, principalmente após eu ter aguardado minha vez de falar na roda de discussão.

Além da falta de educação, corta-me ao meio a sensação de menosprezo pelo meu pensamento, pela minha inteligência, pela minha capacidade de entendimento do assunto discutido, como se o fato de eu ter ouvido e respeitado o direito do outro faz de mim apenas uma pessoa a enfeitar a mesa de reunião, como se fosse um bibelot gordinho.

Talvez por isso eu tenha desenvolvido outras formas de expressão como a escrita, onde eu posso resumir, sintetizar e esclarecer meus sentimentos e pensamentos sobre o que quer que seja, sem que tenha que me irritar e desejar estrangular aqueles que se sentem superiores em sua oratória mal-educada e soberba.

Isso me aborrece!

Aprecie o texto e reflita sobre seu comportamento quando pensa que está conversando com alguém. Quem sabe você não se descobre um aprendiz no processo da escuta.
Marta

Escutatória
Rubem Alves

Sempre vejo anunciados cursos de oratória.
Nunca vi anunciado curso de escutatória.
Todo mundo quer aprender a falar…
Ninguém quer aprender a ouvir.

Pensei em oferecer um curso de escutatória,
mas acho que ninguém vai se matricular.

Escutar é complicado e sutil.
Diz Alberto Caeiro que…
– Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores.

É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas.
Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.

Parafraseio o Alberto Caeiro:
– Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito.
É preciso também que haja silêncio dentro da alma.
Daí a dificuldade:
– A gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor… Sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração… E precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.

Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade. No fundo, somos os mais bonitos… Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos… Pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos.
É preciso tempo para entender o que o outro falou.
Se eu falar logo a seguir… São duas as possibilidades.

Primeira: Fiquei em silêncio só por delicadeza.
Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar. Falo como se você não tivesse falado.

Segunda: Ouvi o que você falou.
Mas, isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.

Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: Estou ponderando cuidadosamente tudo àquilo que você falou. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir.

Fernando Pessoa conhecia a experiência… E, se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras… . Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia. Para mim, Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros:
– A beleza mora lá também.

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