Ser mulher

Já lhes falei sobre minha admiração por Clarice Lispector, mas somente hoje formou-se um pensamento dentro de mim que esclareceu uma parte de minha jornada em busca de entender meu processo de ser mulher.

No caderno cultural do jornal A Tarde de hoje(sábado 20/12/08), o jornalista Marlon Marcos apresentou uma matéria sobre Clarice que me deixou embasbacada ao perceber que foi por causa dela e com ela que comecei a escrever. Em seu texto o jornalista comenta sobre a obra “Água Viva” , destacando um trecho da carta que a protagonista escreve a seu ex-amante, que diz:

“…É que agora sinto necessidade de palavras – e é novo para mim o que escrevo porque minha verdadeira palavra foi até agora intocada. A palavra é minha quarta dimensão”

Não fosse eu aprendiz, poderia ter escrito esse pensamento, pois é o que sinto, o que me traduz como pessoa!

Como o jornalista diz, o texto é “expressado pelas entrelinhas, como se a personagem estivesse a falar, sobre seu silêncio durante sua relação amorosa”. Sou eu aqui novamente!

Em outra parte destaca uma citação de Simone de Beauvoir em que a pensadora diz que “…não se nasce mulher, torna-se mulher.” Eu de minha parte interpreto que aprendemos a ser mulher pelo próprio viver feminino, pelas descobertas experimentadas na tessitura social desse gênero. Dói, mas é lindo!

O artigo encerra-se com outro trecho de Água Viva:

“E eis que depois de uma tarde de “quem sou eu” de acordar a uma hora da madrugada ainda em desespero – eis que as três horas da madrugada acordei e me encontrei. Fui ao encontro de mim. Calma, alegre, plenitude sem Fulminação. Simplesmente, eu sou eu. E você é você. É vasto e vai durar.”

Mesmo sem conhecer “Água Viva”, em Amadurescência escrevo sobre esse buscar-me durante as madrugadas em que não durmo, sobre essa diferenciação entre “quem sou eu” e “quem é o outro”, que se mistura comigo pelo fato de eu não saber quem sou. Minhas poesias são a tradução disso tudo em mim.

Não que eu esteja me comparando a Clarice, não ouso, mas é o universo feminino que se repete lá e aqui, porque esse aprender a ser mulher passa pela desconstrução de si mesma, em busca de se conhecer por inteiro. Da angústia à paixão, das dúvidas às certezas de assumir-se com a força de quem encontrou seu lugar, mesmo que seja dentro de seu próprio coração.

Estou nesse caminho.
Marta

Ps1: Por causa de minha ignorância infantil, não conheço toda a obra de Clarice Lispector. Já li muitas coisas e vou em busca de “Água Viva” para conhecer mais sobre esse caminho que estou buscando em mim. Clarice publicou “Perto do coração selvagem” em 1961, mesmo ano em que nasci, talvez por isso minha alma tenha escolhido essa essência para viver esta vida.

Ps2: Marlon corrigiu a informação sobre a publicação de Perto do Coração Selvagem. Esse livro foi publicado pela primeira vez na década de 40. Agradeço a atenção, seja bem vindo ao meu coração.
Abraço.

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Um comentário em “Ser mulher

  1. Querida,

    Fiquei feliz com seu texto e este registro aqui no seu blog. Agora, Perto do coração Selvagem foi publicado pela primeira vez nos anos 40. Um grande abraço e sempre virei aqui.

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