De SP a SSA

Colocando a conversa em dia, segue os vários pensamentos que me acometeram durante a viagem de volta para casa.

Passando pela Praça Armênia a caminho do aeroporto de Guarulhos, vi o monumento em homenagem ao povo armênio com os dizeres:

“Ainda que amordaçem minha boca, vendem meus olhos, tampem meus ouvidos, acorretem minhas mãos e pés, mesmo assim meu coração clamará por liberdade e justiça”.

Pensei: para começar meu dia, tem tudo haver.

Depois fiz uma retrospectiva sobre minha experiência com os taxistas, conclui que eles precisam tanto conversar com seus passageiros quanto nós, que podemos aproveitar esses momentos para dizer o que nos vem a cabeça sem a preocupação de sermos discriminados ou menosprezados por isso. Um papinho sem maiores preocupações faz bem. No geral eles reclamam do trânsito, tanto faz se é de SSA, de POA, de SP, só em Gramado parece que os taxistas são felizes…rsrs

Quando cheguei em Guarulhos a primeira coisa a fazer era me livrar das malas, dito efeito, deu excesso de peso (!) fazer o que? Pagar a tal da multa e ficar quieta. Me empolguei e inclui a mala extra. O problema na realidade não era esse. A questão é que eu precisava aliviar minha cabeça. Consegui equacionar muitos problemas, tentando enxergar soluções reais para o que mais me dói no coração. Mas acontece que não vivemos sozinhos, temos que voltar a realidade de nossa vida, principalmente depois de um período sabático, mesmo que seja curto, como foi o meu nessa semana. O desafio agora é conseguir equilibrar o que descobri sobre mim, com o que consigo fazer com isso daqui para frente. Não quero voltar a ser o que era. Tudo depende de mim e ao mesmo tempo, tudo depende de nós. O passado não pode ser renegado, não quero isso, seria jogar fora tudo o que vivi. O que quero é que o passado me ensine o que não fazer, para poder construir um futuro diferente e melhor. O que fazer, eu tenho de descobrir sozinha. Com certeza a emoção e a paixão continuarão a comandar minha vida. Eu não seria Eu se fosse de outro jeito. Apenas acho que consegui enxergar a importância de meus sentimentos e aprendi que não vale a pena escondê-los ou reprimi-los, apenas para evitar confusões ou discussões, isso, se quero ser realmente feliz.

Fiquei depois no saguão esperando o embarque, observando – eu com a minha tristeza – como as pessoas se fecham em seus mundos, em seus notebooks e fones de ouvido, alheios ao que acontece à sua volta, isoladas, como eu não quero estar. Parece que estou num nível de sensibilidade em que consigo perceber as nuances nos gestos das pessoas e fico tentando imaginar o que as leva a fazer esse ou aquele movimento. Espero que não seja mais uma fuga de mim mesma e sim um caminho para interiorização e renascimento.

Já na fila de entrada percebi que a música me acompanhava. A OSESP – Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, estava embarcando para uma apresentação na Concha do Castro Alves em SSA, amanhã. Será que terei a sorte de assisti-los?

Depois, sozinha em meu assento comecei a me incomodar. Que tristeza é essa que esta se abatendo sobre mim? De novo essa falta de confiança em mim mesma de que vou conseguir mudar as coisas? Olhei para fora e percebi que as nuvens estavam abaixo de mim, acima apenas um céu azul, limpo e quente! E meu coração com espaço vazio para coisas novas, incluindo você meu amor.

As nuvens formam uma massa de água compacta, como um oceano quase sólido. Como seria andar literalmente nas nuvens? Afundar os pés como se fosse espuma macia, para poder caminhar sem medo de me machucar.

A bordo a linha do horizonte muda. Ela se forma entre o limite do céu e do mar de nuvens, em comparação com a parte da fuselagem que podemos ver por essa pequena janela. Dei-me conta que esse novo horizonte está a 10.000pés de altura, e não pode ser visto do chão. Só pode ser alcançado se você tirar os pés do chão. Se você voar! Acho que por muito tempo esperei para ver meus horizontes com os pés fincados na terra. Quanta coisa deixei de ver nesse tempo?

Quando eu era criança gostava de desatar nós de barbante. Não sei se já contei isso aqui. Mas hoje posso dar uma interpretação diferente para essa questão. Pense que nossa vida é um fio de barbante emaranhado, toda vez que você usa, enrola de um jeito diferente até que chega um dia em que você tem de parar, perder algum tempo e desatar os nós, senão não vai conseguir esticá-lo para usar novamente. Se estiver muito complicado ou estiver sem tempo, você acaba jogando fora e comprando outro rolo de barbante, novo, limpo e pronto para ser usado sem esforço. Acontece que você não pode fazer isso com sua vida. Não dá para jogar fora e comprar outra. Não tem escolha, tem de parar, desfazer os nós e aprender a enrolar o fio conforme a meada. Arrume tempo para isso, ou vai ter de usar seu barbante velho, mesmo que não sirva mais para o que você quiser amarrar.

Lembrei de um amigo que me disse uma vez, a respeito de minhas poesias, guarde os originais porque um dia eles podem valer muito dinheiro…Espero que eles valham muito hoje, não dinheiro, mas sentimentos. Minha vida está nesses manuscritos! Para completar veio essa música na cabeça:

“Minha vida que parece muito calma,
tem segredos que eu não posso revelar,
escondidos bem no fundo de minh’alma,
não transparecem nem sequer em um olhar.
Vive sempre conversando a sós comigo,
uma voz que eu escuto com fervor,
escolheu meu coração pra seu abrigo,
e dele fez um roseiral em flor.
A ninguém revelarei o meu segredo
e nem direi quem é o meu amor…”

(Doce Mistério da Vida/Ah! Sweet mistery of life/
V. Herbert, versão de Alberto Ribeiro)

– Fui recebida pelas baianas e pelos berimbaus da capoeira. Muito bom!

Marta

Ps.: Nunca mais me separo desse meu caderninho!

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