Mundo animal

Quando era menina, minha mãe amarrava meus cabelos com fita de cetim branca para eu ficar arrumada e ir para a escola. Às vezes rabo de cavalo, às vezes maria-chiquinha, apertava tanto que parecia que queria prender o juízo dentro da cabeça, nenhum fio ficava fora do lugar. Eu ia sozinha acompanhando um grupo de crianças e mães até a escola, não me lembro porque ela não ia comigo, acho que para não deixar minha irmã sozinha em casa, não sei. O caso é que ganhei um cachorrinho chamado Totó. Na época era um bom vira-latas, que hoje seria chamado de Fox-terrier Paulistinha, ele ia adorar esse pedigree… Bem, Totó me acompanhava até a escola fazendo bagunça no meio das pernas da criançada e estava lá todos os dias me esperando na hora de voltar para casa e eu simplesmente amava aquele cãozinho, era realmente meu primeiro e único amigo. Um dia ele não estava me esperando, e nunca mais voltou. Acho que essa foi minha primeira decepção na vida, nesse tempo eu tinha 7/8 anos.

Um bom tempo depois, ganhei uma cadela pastor-alemão tipo “capa-preta”, quer dizer, além dela ser toda negra, tinha uma faixa nas costas que era mais escura ainda que todo seu pelo. Ela era macia, dócil, companheira; chegou quando eu tinha uns 12 anos e dei-lhe o nome de Minie. Mas ela cresceu e como todo pastor alemão que se prese, ficou quase do meu tamanho quando ficava em “pé”. Meu pai dizia que aquela cadela só faltava falar, porque o modo como ela olhava e participava de nossa vida só podia ser coisa de Deus. Todos a amavam, até os vizinhos que queriam que ela cruza-se com seus cães. Final da história: ela acabou tendo algumas crias com um fulano pastor alemão amarelo (horroroso!) do vizinho. Meu pai fez questão de ficar com um filhote, mas que moleque malcriado aquele cachorrinho. Minha irmã deu-lhe o nome de Pumé ( não me pergunte de onde ela tirou esse nome!). Ele era bagunceiro, arruaceiro, latia para todos que passavam na rua e Minie nos olhava como que pedindo – tenham paciência ele é só uma criança! Mas não teve jeito, ele ficava em cima do muro latindo para as pessoas que passavam de madrugada para ir trabalhar. Tinha um homem (do qual ele não gostava) que quando passava em frente de casa, a criatura pulava e ia latindo até o ponto do ônibus atrás do coitado. Um dia meu pai recebeu um recado que se ele não desse fim no cachorro, ele (o homem) iria dar. Meu pai ficou assustado ao pensar que o cachorrinho poderia aparecer morto e resolveu dá-lo para um dono de uma chácara perto de casa. O bicho não ficou dois dias lá, o dono da chacará trouxe de volta porque disse que não aguentava ficar com ele de tanto trabalho e barulho que ele fazia, só ficava com ele se a mãe fosse junto. Sabe o que aconteceu? Perdi novamente minha amada companhia. Depois disso minha mãe fez uma promessa de nunca mais ter um bicho em casa, ela disse que não aguentaria outro sofrimento desses.

Uma eternidade depois, casada e mudada para a Bahia, meus filhos ganharam uns peixinhos na escola. Pensei, peixe não dá trabalho não é mesmo? Que mal pode fazer? E fomos comprar o aquário, a bomba, as pedrinhas, a comida, o limpa-água, ficou lindo! Ensinei os meninos a colocar a quantidade de comida certa e a limpar o aquário. Porém, comecei a receber telefonemas do tipo: ô mãe peixe come pão, peixe come sucrilhos, peixe come bala? Imaginem quanto tempo os peixinhos conseguiram sobreviver àquele regime de engorda…Mas gostamos da experiência e sempre tinha um peixe novo em casa, para substituir os falecidos da semana passada.

Depois disso, durante a construção de minha casa, apareceu uma gatinha siamesa linda cor de chocolate e eu me apaixonei pela criatura. Levei para casa, levei no veterinário, vacinei, dei banho, gravatinha e lacinho na testa (que ela odiou), e essa gata foi tomando conta da casa, do sofá, da mesa de estudo dos meninos, da TV. Ela tinha caminha, pratinho, tudo que uma gata de raça poderia querer na vida, o problema é que ela era uma “gata da vida”. A bichinha só queria farra e dá-lhe miar de noite. Foi um tal de aparecer gato lá em casa que eu me admirava com a quantidade de cores, tamanhos e outras categorias que não sabíamos existir. Resultado: gatinhos! Três ninhadas por ano. E para esparramar esses gatos pela vizinhança? Todos lá em casa tinham a missão de arrumar um dono em potencial para que nós o seduzissemos até convecê-lo a ficar com um filhote. Resumo da ópera, nos mudamos para a casa nova e lá ela teve mais umas duas crias, até que um dia desapareceu, e eu fiz a mesma promessa de minha mãe – Bicho nunca mais!
Marta

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